domingo, 30 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo

aos leitores, comentaristas e admiradores de O Descurvo. Manter este blog vivo e animado durante o ano de 2012, em virtude das obrigações todas referentes ao meu último ano na graduação, foi um grande desafio -- felizmente cumprido. Mesmo diante de todos os revezes, foram publicados mais de 100 posts este ano -- este, por sinal, é o 101º --, cuja temática se ateve a dois eixos fundamentais que dominaram o debate comum brasileiro neste ano que se encerra: a questão metropolitana, marcada pela eleições municipais, e a crise na justiça brasileira, acirrada pelo julgamento da ação penal 470.

Ainda assim, quatro outros temas de fundo perpassaram a agenda como pano de fundo óbvio e evidente: os caminhos e descaminhos do governo Dilma -- o que implica em analisar o estado da arte da esquerda no país --; o agravamento da crise mundial -- agravamento permanente como natureza da crise --; o estado de coisas na blogosfera -- interditado e frustrado, em razão tanto do avanço das redes sociais de massa contra a velha rede selvagem, ao mesmo tempo em que o debate (e a disposição para tanto) se esgarça; por fim, a situação dos movimentos insurgentes que eclodiram entre o fim de 2010 e o início de 2011, e a reação referente a eles que se instaurou em 2012.

O governo Dilma e os destinos do PT. Como a instituição de um macroprojeto socialista de massa é distante -- e distanciante -- do comum e como, por outro lado, certas forças que causaram o evento Dilma com uma vontade diversa disso, giram não mais à esquerda, mas sim mais ao ideal[ilismo]. Ainda assim, a força principal que causou Dilma, e causou e sustentou Lula, está aí, como uma classe sem nome. Algo acontece, apesar do nevoeiro de má consciência, comiseração e ressentimento. É essa tendência real, para usar aqui um jargão marxista, que anima o Brasil, para além do bem e do mal. Esse processo monstruoso, social -- com a classe sem nome de um lado -- e político -- marcado pelo Lulismo -- produz interações e faíscas que dizem respeito ao globo em 2013. 

Os rumos da máquina mundo estão postos. A crise mundial é crise, por sua própria natureza, no sentido de que a indignação com o descalabro cotidiano veio à tona. E o descalabro em questão tem um nome, é o próprio Império global, em termos não muito diferentes do que Negri e Hardt conceberam. Mas o globo não é só Império, é multidão que luta e afirma um direito comum das gentes frente à exceção soberana, frente à expansão do Estado pelos recônditos do inconsciente.

É isso, um grande ano para nós todos.

P.S.: pessoalmente, 2012 foi um ano extremo, cheio de ritos de passagem e situações limite. Só num futuro próximo acho que vou ser capaz de avaliar isso tudo.

P.S. 2: Seguem as postagens mais lidas de 2012:




quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Brasil e a Crise na Justiça

Final de ano, período entre Natal e ano novo, e estamos diante de uma grave crise na Justiça. Não custa lembrar que antes de ser uma pátria de chuteiras, o Brasil era uma pátria de bacharéis, mas por qualquer motivo perdeu a vocação para tanto. Isso até o julgamento da Ação Penal 470, vulgo julgamento do "mensalão", cereja no bolo no processo de aumento do poder do Supremo Tribunal Federal (STF) -- e de todo um estado de coisas que apontam para a judicialização da vida no nosso país. Como aponta o sempre atento Paulo Nogueira, passamos de especialistas em futebol e economia para, também, entendedores de Direito. 

Ainda assim, seguindo a sagaz observação de Paulo, não é para tanto: o STF não tem a confiança de metade da população, em que pese toda a superexposição positiva dada pela mídia, o que demonstra que a coisa é grave, mas confrontável. E, sobretudo, que precisa ser confrontada mesmo pela sociedade, haja vista a maneira como Joaquim Barbosa e Luiz Fux foram indicados para aquele tribunal (ainda mais o último, depois de sua lamentável confissão de como conseguiu a indicação), sem contar todos os demais -- dentre os quais se inclui até um primo do ex-presidente Collor, indicado pelo próprio antes dele ser defenestrado em processo de impeachment.

Mesmo assim, tomemos cuidado: o STF pode não estar com a bola toda, mas atuações punitivistas espetaculares são populares aqui e em todo mundo "civilizado" desde sempre: e bem o sabem filósofo Sócrates e o aniversariante de ontem, Jesus Cristo. A massa pune e quer sangue; o desejo de vingança é expressão máxima do homem na civilização, talvez pelo ressentimento de viver sob as amarras civilizatórias;  no caso da AP 470, qualquer análise lógica dos fatos apontam para tanto: no lugar de se mostrarem isentos, os ministros se revelaram escravos do punitivismo midiático, sem provas e sem teoria como nos lembra Luiz Moreira ou que para condenar, só com atos de ofício como postula Pedro Serrano. 

As coisas também são mais complicadas do que isso: é preciso lembrar que a dureza dos ministros com José Dirceu ou o militante italiano Cesare Battisti (sobretudo com o último) contrasta com sua leniência com banqueiros como Daniel Dantas. Naquela corte, a opção entre o uso do garantismo penal e do direito penal do inimigo varia conforme o réu -- mas não conforme o freguês, que parece ser o mesmo em todos esses casos de relevo. Se as massas detêm um desejo confuso e geral de punição, a mídia corporativa sabe bem quem deve ser objeto dessa fúria toda.

Mesmo julgamentos poucos populares, mas que geraram direitos, apresentam um modus operandi: a corte apareceu como salvadora dos fracos e oprimidos, como se os direitos dos gays (ainda mitigados, apesar da conquista do direito à união estável) ou dos ativistas pela liberação de certas substâncias alucinógenas (como no caso da marcha da maconha) decorressem da boa vontade dos ministros, face ao suposto autoritarismo das massas, e não da atuação de inúmeros ativistas e organizações -- embora reconheçamos que as reivindicações legítimas que lograram êxito por ali foram aquelas que, de algum modo, conseguem ecoar também nos salões da elites, ao contrário, por exemplo, da causa indigenista, relegada sempre ao segundo plano.

A recente crise institucional entre o STF e o Congresso Nacional, peça final do julgamento da AP 470, foi um episódio curioso. O STF deliberou pelo aumento de sua própria competência e, ato contínuo, invadiu a esfera de competência do Legislativo por meio da suspensão de um dispositivo constitucional vigente (!). Ainda assim, como anota o juíz Marcelo Semer, a disputa parece um tanto mais retórica, uma vez que o Congresso se empenhou em aumentar o poder do STF gradativamente nos últimos anos, verticalizando a jurisdição e lhe colocando em um pedestal institucional. Lula e FHC merecem destaque nessa empreitada.

Certamente desde que por obra e graça do golpe de 64 a nossa melhor composição do STF foi desfeita -- que contava com juristas do porte de um Victor Nunes Leal, um Hermes Lima ou de um Evandro Lins e Silva --, as coisas andem mal, com repercussão também nos cursos de letras jurídicas. O resultado é que as gerações de juristas formadas depois está longe do brilhantismo das anteriores, os cursos de Direito perderam o ímpeto transformador de antes e se converteram em fábricas de burocratas. Se os juristas de hoje estão longe dos de antigamente, a escolhas do executivo, mesmo em governos de "esquerda" consegue ser pior. Não teríamos como reproduzir de forma alguma a qualidade do STF pré-64, mas isso não quer dizer que os 11 melhores jurístas possíveis sejam hoje os ministros daquele tribunal.   

Lula e Dilma têm responsabilidade nisso. O PT, assim como boa parte do país, se preocupou demais com assuntos de matéria econômica e pouco com o Direito. O partido da estrela apresentou, é verdade, soluções mais justas no campo econômico, mas não consegue dimensionar o tamanho devido à economia -- e o economicismo grassa no governo Dilma -- ao passo que lida pessimamente com as instituições. O recente veto ao projeto de lei que concederia autonomia às defensorias públicas -- projeto ratificado, inclusive, pelas lideranças do partido e por sua própria Casa Civil e Ministério da Justiça -- é uma mostra disso: falta na cúpula senso jurídico.

Há dois atrás, quando expus as razões do meu voto em Dilma, ressaltei que de todos os três âmbitos de atuação de um governo -- política externa, política econômica e política institucional --, o ponto mais fraco de Lula foi certamente no terceiro item. E as coisas prosseguem nesses termos, embora agora a ferida esteja exposta: os onze ministros do STF, triste ironia em um país no qual o futebol é tão popular, são tanto menos hábeis ou representativos do que os outros onze, que se alternaram na escrete canarinho nos últimos anos. Por outro lado, continuamos pensando muito em economia e pouco em direitos. É um cenário desalentador e fascinante ao mesmo tempo.

 

  

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Entre a Instituição da Crise e a Crise Institucional

Camuccini
A crise institucional que o Brasil vive no presente momento, por sua vez, trata-se da medida de exceção pela qual o Superior Tribunal Federal (STF) resolveu suspender, de forma branca, a vigência ao §3º do art. 55 da Constituição Federal, entrando em confronto com a Câmara dos Deputados Federais. Na prática, o STF, deliberando sobre os limites de sua própria competência, decidiu de forma absoluta que consequências condenatórias de sanções penais suas, contra detentores de mandatos eletivos parlamentares, gera a obrigação do legislativo declarar a perda do mandato. Na prática, o STF arrogou para si mesmo a competência de cassar mandato de parlamentares e, também, confundiu perda dos direitos políticos com automática perda de mandato.

Por que isso é tão absurdo? Primeiro porque começa com um órgão decidindo sobre os limites de si mesmo. Depois, porque rompe com a divisão entre o político e o estritamente jurídico (ou talvez seja jurídico-judicializável), que é uma abertura para a atualidade da constituição de direitos nas cartas constitucionais ou, em termos simples e mais imediatos, equivale ao seguinte: romperia-se a barreira que existe no nosso ordenamento e que impede, por exemplo, um golpe branco por via judicial direta; agora bastaria uma decisão judicial e pronto. O que dizer do impeachment, agora?

Parlamentares possuem mandato, cuja natureza é sobretudo política, portanto, eles o perdem de acordo com a votação de seus pares -- um juízo, naturalmente político. Outra coisa são as condenações judiciais que eles podem sofrer, ressalvadas as necessárias limitações que o poder judiciário tem para julga-los -- cuja serventia é, precisamente, evitar perseguições políticas por via judicial. A divisão é necessária, a menos que você seja suficientemente ingênuo ou fascista para ignorar que (a) nem todos os condenados são necessariamente culpados; (b) que quem está imerso na atividade política está particularmente exposto a esse tipo de condenação, sobretudo na falta de uma oposição capaz de vencer nas urnas, pelo voto. 

Essa separação, embora funcione mal desde sempre e em toda parte, é necessária, ao menos como esforço, para evitar que um órgão dite as normas acima delas -- eu crio as leis, eu defino meu espaço e minhas competências, a lei existe, mas é referencial que usar para ultrapassar e condicionar os outros, tão somente eles. A diferença entre a exceção soberana permanente e os monarcas autoritários de séculos atrás está, tão somente, no caráter puramente sistêmico e não pessoal da coisa, nada mais. Mas a exceção hoje não está em um regime autoritário que se assemelhe a um absolutismo, um totalitarismo, mas sim em uma operação que se dá por dentro das constituições democráticas e das democracias formais. O cândido neoconstitucionalismo sempre acalentou essa ideia inconfessável

Ao fazer isso -- e não foram poucas situações recentes nas quais isso aconteceu, ou melhor, lembremos do caso Battisti --, o STF se colocou absolutamente acima das leis, além de romper a fronteira entre o político e o judicial, fazendo o segundo tutelar o primeiro -- o rompimento da autonomia da condenação pelos pares, contida na simbologia da perda do mandato ocorrer por declaração da mesa diretora da Casa legislativa à qual ele pertence, inclusive é mau sinal: desde a magna charta é assim e de lá para cá, lá se vão 800 anos. No nosso bom Estado, como em toda parte, fale-se em separação dos poderes para vigia-lo devidamente, mas sempre haverá quem dê a palavra final. É o segredo sujo do sistema. Disputa pelo poder é disputa pela palavra final [de dizer não].

A eliminação da esfera que a Constituição reserva ao político -- que, na verdade, é o jurídico não judicializável tipicamente -- por sua tutela judicial é um risco. . Eliminar esse "político" é tornar o que já é ruim pior, e demandaria juízes perfeitos, ao mesmo tempo que em seu princípio nega que o representante melhor é aquele que se legitima frente ao povo, mas sim o que domina uma linguagem sequer compreensível -- e que não é feita para isso -- para as pessoas comuns -- e que resolverá os problemas pondo-se acima de todos. Uma iconografia que já doentiamente platônica, idealista até o talo, seria extremada: temos nossos reis-filósofos, ou julgadores totais-juristas.

Tudo passaria a ser objeto de julgamento e o monopólio pertenceria aos juristas togados; a parafernália judicial, o discurso que só os inteligentes entendem, pairaria sobre a subjetividade discursiva, não há democracia nisso mas uma aristocracia -- no sentido etimológico do termo mesmo -- de juízes. Se no campo da filosofia é sempre de bom tom relembrar o "desejo de fascismo" das massas de Reich, pensemos, em termos jurídicos como Pedro Serrano: desejo de exceção [soberana]. E toda essa celeuma, para qual o presidente da câmara, o petista Marco Maia, ganhou o apoio de tucanos e demistas -- até do editorialista da Folha, pasmemos -- tem pouco a ver com se a câmara deve ou não cassar os deputados condenados no processo do mensalão, mas que ela deve e pode decidir autonomamente. Porque, pelo menos, disso se pode questionar o processo de alguma forma.

Eis a crise institucional, a situação na qual as engrenagens de uma organização política se chocam, colocando sua racionalidade discursiva em colapso. Ela não é propriamente estatal, embora, hoje, elas o sejam por tabela. É o Estado em confusão. E não há crise que não seja boa, uma vez que crises só nascem quando o absurdo cotidiano, de algum modo, seja posto à tona pelo confronto. A presente crise é ótima. Aponta uma dobra, pela qual, apesar da pirotecnia e do fetiche pelo linchamento que pesam contra, podemos discutir eticamente a fratura essencial da forma estatal (da nossa, inclusive), a questão da palavra final -- e, por óbvio, sua faceta exposta no Brasil de hoje que é o próprio STF justiceiro. O que está em jogo, meus caros, é menos o mandato de uns reles parlamentares e tanto mais o futuro do instituto do impeachment.  



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Telhada de Vidro da Democracia Brasileira

Lula nas caravanas da cidadania
O Brasil está próximo de uma grave crise institucional. De um lado, o STF resolveu finalizar o julgamento do Mensalão com (mais) uma decisão controversa, o arranjo final de uma ópera bufa: obrigar a câmara dos deputados a cassar automaticamente o mandato de quem foi condenado judicialmente no processo, do outro, Marco Maia, presidente da câmara, já declarou que irá se recusar a acatar a decisão do STF, uma vez que se trata de interferência indevida de um poder no outro -- e já conta com o apoio de outros líderes partidários. Somado a isso, a insinuação de Joaquim Barbosa de que o Ministério Público Federal deveria investigar o ex-presidente Lula e a resposta do mesmo, em Paris, de um pacto político pela saída da crise com justiça social e da proposta de retomar as caravanas da cidadania, dão o tom do confronto.

Um cenário muito complexo e, ao mesmo tempo, muito simples se monta no horizonte: a recente ascensão dos tribunais na América Latina como senhores absolutos da razão, e tutores da democracia, é uma forma branca de impedir a democratização real no continente. Substitui-se a política pelo jogo judicial, quando, na verdade, é só uma forma de retirar das assembleias e da multidão a autonomia para produzir direitos -- ou mesmo tutela-la, seja pelo poder de negar reivindicações ou mesmo, do poder de chancela-las, aparecer como sumo produtor de direitos, uma ilusão recorrente em meio à esquerda: é como, de repente, que não fosse a militância gay que tivesse lutado pelo direito à união estável igualitária, entre outras coisas.

Tivemos os recentes ocorridos em Honduras e no Paraguai, onde os presidentes -- ambos coincidentemente à esquerda no jogo político local -- foram removidos do poder em decisões de exceção: a primeira, a determinação de expulsão do país que impediu o devido processo legal e resultou na destituição de Manuel Zelaya, a segunda, uma decisão de impeachment relâmpago contra Fernando Lugo, sem direito à defesa e por conta de um libelo acusatório que não tem provas. Em ambos um caso, um padrão: a suprema corte como detentora da palavra final, por ter a suprema capacidade de acessar a verdade pura, dizendo quem fica ou quem vai. O fetichismo do direito trazido às suas origens viscerais: os sábios leram nas tripas dos animais quando e se deveria se fazer a guerra.

No Brasil, não foi diferente com o dito julgamento do mensalão. O foco dado aos dirigentes petistas no processo em questão, a antecipação do julgamento das acusações contra líderes petistas -- quando aquelas que pesavam contra líderes do PSDB eram cronologicamente anteriores --, sua realização durante o pleito eleitoral e declarações de ministros de que se basearam por ilações e suposições em vez de provas fecham o quebra-cabeças. 

Existe uma retórica institucionalista de canto a canto que alimenta isso. Petistas e mesmo tucanos e demistas estão contra a última decisão do STF de se arrogar como cassador de mandatos dos parlamentares -- uma hipótese ridiculamente inconstitucional --, mas os tucanos ainda falam em "palavra final" do STF -- embora saibam que não possam concordar com ela em termos gerais -- e todos falam em "defesa da Constituição" em termos bastante liberais. Mesmo os ex-partidão, o PPS, e o PSOL que se mantêm juntos na defesa da decisão do STF carregam o mesmo ranço conservador, aliado a um punitivismo e um revanchismo em relação ao PT.

Em tempos nos quais não é possível mais imaginar mudanças de poder via forças armadas, um novo deus ex-machina aparece: os quarteis dão lugar aos tribunais e as fardas às togas. Se as lutas constituintes que resultaram na atual democracia, contidas sobretudo no ciclo de 13 anos entre 1975-88, foram cristalizadas na Carta Constitucional -- que desde os tempos de Napoleão é a forma de fazer cessar a revolução como nos lembra muito bem Antonio Negri em seu Poder Constituinte -- e se tornam objeto da guarda de um órgão que decide o que está de acordo ou não com ela: há poder mais supremo do que assumir o monopólio do discurso da legitimidade jurídica de tudo que existe? 

Se tudo passa a ser medido por uma máquina que funciona à base do binarismo constitucional-inconstitucional, e só um órgão controla isso, o que temos? A decisão sobre o que é constitucional nas mãos de um grupo de notáveis que é, ironicamente, do tamanho de um time de futebol. Constitucional passa a ser o que o STF dita e completa-se a boa observação de Agamben: embora falemos de Estado de Exceção, é fato que esse fenômeno não é propriedade exclusiva dos regimes jurídico-constitucionais especiais, tampouco dos regimes autoritários, mas ele opera tranquilamente por dentro das "democracias" e de seu funcionamento regular -- como na situação atual e ridícula do Estado brasileiro, na qual o STF decidiu quais recursos, e como suas próprias decisões recentes podem sofrer questionamentos (sim, vocês podem me embargar!).

Talvez Lula tenha percebido isso, ao retomar as caravanas da cidadania, viagens pelo interior do país para mobilização das massas em um momento de paralisia e desencanto, quando a democracia nascia desde já tutelada e a hiperinflação corria a vida dos pobres -- para depois ser resolvida às custas da oneração deles mesmos -- nos anos 90. Lula sabe que precisa sair politicamente das cordas e a resposta para tanto, é claro, só pode ser pela deflagração da potência da multidão de pobres e minorias, a monstruosa classe sem nome com a qual ele bailou nos últimos anos. Mas é preciso ter algo o quadro em mente, inclusive do fracasso das suas escolhas para o STF, que repetiram a mesma fórmula batida de obscuridade nos métodos de escolha de gestões anteriores: seu problema, aliás, não é ser fiel a Lula incondicionalmente, mas ter sido fiel incondicionalmente à aclamação e à glória pública do teatro da mídia.

A resposta para tanto precisa completar a própria burocratização do PT no governo, sobretudo com o gerencialismo de Dilma, e a falta de uma resposta suficiente ao "neoliberalismo" -- embora eu prefira me referir ao fenômeno que devora a terra nos últimos quarenta anos como "capitalismo cognitivo" pela, digamos, amplitude e precisão do termo. Lula e Dilma continuam, ressaltemos, bem avaliados: a opção por enfrentar a crise defendendo o emprego e os salários dos trabalhadores, a manutenção dos programas que vertem renda para a multidão -- como o bolsa família e os pontos de cultura -- e as cotas continuam aí, além de existir uma percepção geral de justiça social entre as pessoas comuns, gera isso, somado a incompetência generalizada das oposições (que defendem a manutenção dos preços das contas de energia nas alturas, por exemplo). 

Isso não quer dizer, no entanto, que o PT esteja ciente do tamanho  do desafio. Aumentar investimentos públicos para expandir, por exemplo, a rede de internet de banda larga pelo país era uma necessidade premente. Resolver a atual crise por meios que passem pela constituição do comum, por dentro do Estado, talvez seja ignorado: a questão é procedimental demais e preocupada demais com parcerias, e modos de parceria, com o privado. A exemplo do que fizeram Schroeder na Alemanha e Bush nos Estados Unidos, Dilma promove isenções de tributos e diminuição de alíquotas, quando poderia mantê-las e ampliar programas sociais -- e não precisaria de disciplina fiscal tão rigorosa que, inclusive, a colocasse na dividida de bola com servidores públicos --, evitando assim empresas com caixas gordos e pouco dispostas a investir em qualquer coisa (como nos Estados Unidos de Obama).

É preciso mobilizar as bases, mas é importante integra-las, do contrário o apoio pessoal terá sempre uma dimensão ampla e pouco profunda, pronta a capitular ao desejo de exceção soberana, e de fascismo, alimentado diariamente pela mídia em toda parte. 

P.S. (D.B.): depois de alguns dias em marte, em decorrência dos compromissos de final de curso, volto à terra e me deparo com novidades curiosas. O Coronel Telhada, ex-matador da PM e  vereador eleito em São Paulo pelo glorioso PSDB, foi nomeado para a comissão de Direitos Humanos da Câmara é piada pronta, ou melhor, seria trágico, não fosse cômico.

P.S. 2: tratei de alguns temas abordados aqui nesta entrevista dada ao meu amigo Tiago Aguiar, ao lado de muita gente boa como Pedro Serrano e Giuseppe Cocco.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Dosimetria contra a Democracia: um Manifesto por algo além do moralismo e do punitivismo

O julgamento do mensalão, realizado, talvez não de forma coincidente, durante as eleições municipais com direito à máxima (e seletiva) atenção da mídia corporativa é motivo de preocupação. Seja pela redução da política aos tribunais ou pelo emprego de mecanismos duvidosos na condenação dos réus, quais sejam,  a despreocupação com as provas e, por conseguinte, a ativa preocupação em alimentar o desejo de exceção, de punição e eliminação do outro como forma de resolver seus problemas. 

Punição feita espetáculo, o evento em questão repete as fogueiras da vaidade de Savonarola, que já  buscavam eliminar o homem virtuoso do renascimento no seu nascedouro -- em nome de uma pureza e uma decantada moralidade, dentro de um jogo de culpa e pirotecnia, coisa que mais tarde tomaria forma com o advento da modernidade e os implacáveis tribunais da razão (e o gosto pela palavra final sobre todas as coisas).

Outra dimensão não menos relevante do processo é o seu uso, nada ocasional, como arma contra o Lulismo e suas consequências, sobretudo no que toca à incômoda ascensão selvagem da classe sem nome. O que não o exime de suas limitações, inclusive como instrumento político eficaz para lidar com as mudanças que ele próprio deflagrou. Para o Poder é preciso, pois, fazer as minorias "voltarem para o seu lugar" [a senzala]. Confrontar esse movimento intolerável é dizer sim a uma democracia real contra o jogo de imagens de uma democracia formal(ista), amparada no vazio da retórica. Pelo exposto, assinamos:



REDE UNIVERSIDADE NÔMADE




 … todos aqueles que têm dedicado
o melhor de suas vidas à
luta por direitos e pela democracia
contarão sempre com a nossa solidariedade.

Dosimetria contra Democracia
1 – A “ação penal 470” amplia a corrupção e diminui a democracia.
A corrupção não é o desvio das regras das instituições de reprodução da sociedade desigual, racista e violenta, mas seu modo normal de funcionamento. O processo transformado em espetáculo no julgamento dessa ação é uma demonstração formal do que acabamos de dizer em termos de conteúdo: o que é aplicado ao caso do PT não é aplicado ao PSDB mineiro e nem o foi ao Collor. E as razões desse tratamento desigual não devem ser buscadas na suposta escala das práticas comuns aos dois casos, mas antes num movimento mais profundo de reação demofóbica aos projetos de inclusão levados adiante com a participação de alguns réus do caso escolhido “a dedo”, orquestrada através da proximidade entre a grande mídia e as elites nacionais.
O que é a corrupção? Toda corrupção política tem duas raízes estruturais: a material, que é a desigualdade (não há corrupção possível numa comunidade de iguais) e a formal, que é a própria representação (onde quer que poucos exerçam poder em nome de muitos, sem que estes possam destituir aqueles a qualquer tempo, o princípio da corrupção está instalado). O resto é moralismo hipócrita: uma arma da corrupção, inerente ao modelo desigualdade-representação e sempre pronta a ser usada contra quem ameace os reais esquemas de poder; o moralismo de inspiração lacerdisto-udenoide é o outro nome do golpismo na política brasileira dos últimos 60 anos. A corrupção da democracia está na redução da expressão dos muitos ao jogo formal da representação voltado para a reprodução das relações de poder estabelecidas e favoráveis aos poucos. Isto é, nosso regime político é a própria corrupção sistematizada.
Qual o mecanismo da corrupção? Aquele que produz efetivamente a inversão da relação entre forma e conteúdo: o jogo formal das diferentes instâncias do poder (por exemplo, o STF) se autonomiza de sua fonte viva e passa a decidir as condições nas quais a democracia pode se manifestar: assim, um ministro do Supremo Tribunal Federal se sentirá legitimado de declarar que “governo de coalizão não é bom”, ultrapassando as próprias instâncias constituintes e representativas formais (assembleia constituinte, eleitorado em referendo, parlamento etc), que são as únicas legitimadas – segundo o modelo que faz a própria corte suprema existir – a decidir sobre as formas da política democrática. Contudo, a situação mais corriqueira dessa inversão é aquela das forças de polícia que impedem uma manifestação de protesto e prendem alguns manifestantes por desacato aos poderes constituídos: a renovação da fonte constituinte é algemada pelo resultado constituído que passa a reprimir sua expressão.
Como a corrupção acontece? Pela substituição do principio constituinte (que está na democracia dos muitos) pelo poder econômico (concentrado nas mãos dos poucos). No Congresso Nacional, isso se chama lobby das empresas; nas comunicações, isso se chama concessões estatais e concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos de poucas famílias; no âmbito da cultura, isso se chama Lei Rouanet; e assim por diante. Já nos processos eleitorais, isso se chama financiamento privado de partidos e candidatos, que em seguida deverão retribuir; esse quadro, conjugado à dinâmica das coligações, produz acertos financeiros entre partidos – as duas “aberrações” são tão inerentes ao modelo eleitoral representativo e plutocrático que todos os partidos e governos as praticam, o que se pune ou não conforme a posição dos mesmos diante do status quo.
A mesma tentativa de asfixia do constituinte pelo constituído está acontecendo escancaradamente em casos como o do projeto do Marco Civil da Internet, cujo conteúdo foi mudado com base na “pressão” (o que bem será a “força” dessa bendita “pressão”?!) do Lobby de 4 ou 5 companhias telefônicas. É a mesma coisa com a “bancada ruralista” e a “bancada fundamentalista” que, com base no lobby e no poder econômico de agronegócio e igrejas condicionam o jogo parlamentar sobre os temas do meio ambiente e dos direitos das mulheres.
Assim, a reprodução do poder das elites – numa democracia representativa –contém sempre esses elementos de corrupção, por trás dos quais podemos facilmente enxergar suas fontes autoritárias: a relação das elites com a ditadura não é espúria e tampouco episódica, mas estrutural (por isso não querem a abertura dos arquivos da ditadura: para eles era uma “Ditabranda”). A redução da democracia aparece imediatamente no amesquinhamento das suas dimensões conflitivas e pluralistas em formas corruptas de consensos autoritariamente construídos e pretensamente inquestionáveis (que constatamos em ação na promoção do linchamento público do único Juiz que não participou do auto de fé judiciário). Enfim, o verdadeiro “lance” do poder – por meio desses mecanismos – é de fazer com que para se chegar “ao poder” seja preciso previamente tornar-se o que o poder já é. Não por acaso o “mensalão” tucano é o pai e a mãe do “mensalão” do PT; é por isso que para ganhar em São Paulo é preciso beijar a mão do Maluf e entregar o Rio de Janeiro aos interesses da cidade-empreiteira.
2 – A dosimetria das equivalências entre crimes e penas.
O processo da “ação penal n. 470” chega ao epílogo previsto, segundo o roteiro que rege a telenovela reacionária do chamado “mensalão”: a condenação e prisão para os militantes do PT que levaram Lula à Presidência da República – com especial ingrediente de vingança de classe no caso dos “Dois Zés”, jamais perdoados por sua participação na resistência à ditadura militar.
Após jogar aos leões da “opinião pública” o próprio conceito de “livre convencimento” dos juízes e o direito ao dissenso, a mídia passou a discorrer sobre a dosimetria.
O julgamento, político e ideológico, com início e duração escandalosamente ajustados ao calendário eleitoral e ao “horário eleitoral adicional” dos telejornais, abraçou as teses da “direita penal” e a perspectiva do “direito penal do inimigo”, para isso atropelando aqui e ali as garantias individuais e coletivas fundamentais do devido processo: direito à ampla defesa, presunção de inocência, exigência de provas e não meros indícios ou testemunhos suspeitos para condenação, etc. Se pensarmos no impacto disso para as próximas etapas da incessante “criminalização dos movimentos sociais”, o quadro é bem preocupante. Para fundamentar a sanha acusatória e condenatória procurou-se lançar mão de teorias que se pretende sacralizadas pelo seu germanismo, mas isso não deu certo. O próprio autor da teoria do “domínio funcional dos fatos” (o alemão Claus Roxin, a quem a imprensa só deu voz depois das condenações, embora tivesse dado entrevistas antes delas) deixou muito claro que por ela não se dispensa provas nem se autoriza condenações com base em meras presunções.
A liturgia barroca dos Juízos ibéricos (que não dispensa o revelador detalhe escravocrata de dispor de serviçais para ajudar os supremos togados a se acomodar nos seus tronos) foi acionada na tentativa de sacralizar a prosaica operação de dosagem “política” da condenação premeditada e anunciada contra pequena e tímida porém única – ao lado do governo Jango, “punido” com o golpe, exílio, a morte – mudança de natureza de classe pela qual passou o poder executivo desde que o Brasil existe. Com isso, o STF subverte a finalidade formal que devia justificar sua função. Ao invés de uma instância “superior, independente e imparcial” destinada a zelar pelas garantias constitucionais, temos o cenário, subalterna e midiaticamente tutelado, da judicialização da política e dos conflitos democráticos. O STF revela-se como dispositivo superior da elite dominante na concretização de mais uma “revolução pelo alto”. O partido virtual da elite – a mídia – já ensaia transformar o mais histriônico, intolerante e – por isso mesmo – midiático torquemada num factóide eleitoral, uma espécie de versão reload do “Caçador de Marajás” de 1989.
Que os pobres voltem para o lugar de onde nunca deveriam ter saído! Estamos exatamente no quadro do conhecido Sermão do Padre Vieira: “Os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais … roubam e despojam o povo”.
3- José Dirceu e José Genoíno estão sendo condenados à prisão por terem sido peças fundamentais do governo Lula, que aprofundou a democracia real.
A culpa de Dirceu e Genoíno é de ter aberto brechas reais no poder e assim determinado uma redução da corrupção: aproximando a expressão dos muitos da representação estatal, inclusive do STF, que passou a julgar de maneira favorável alguns dos grandes embates da transformação social e política do País (Prouni, cotas, demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, união homo-afetiva).
O crime dos “Dois Zés” é de ter reduzido a corrupção da democracia.
O nome do crime se chama “Lulismo”, um espectro que ronda pelo Brasil, das metrópoles aos “grotões” antes impenetráveis à vida democrática.
O que o poder dos poucos quer de todo jeito eliminar é o Lulismo. O Lulismo tem a cara e a voz dos pobres, mas não se limita a preparar a comida da elite, a engraxar seus sapatos nos aeroportos e a alegrar seus camarotes na Sapucaí. O Lulismo é a valorização do salário da empregada doméstica; o Bolsa Família como embrião de uma Renda Universal; a criança com renda e escola; o Luz para Todos; os estudantes pobres e negros com o Prouni (na universidade particular) e o Reuni (na universidade federal); os secundaristas com o Enem; as cotas sociais e raciais; a demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol; o Programa Nacional de Humanização do SUS; os programas federais que transformam a antiga benemerência da elite em direitos de cidadania; o aumento contínuo do valor real do salário mínimo; a generalização do uso do software livre pelo poder público; a política externa Sul-Sul. Enfim, o Lulismo era também a política de inovação democrática no MinC de Gilberto Gil.
 4- Potências e limites do Lulismo
O Lulismo ganha as eleições e as faz ganhar! A Presidenta Dilma e o Prefeito Haddad que o digam.
Por um lado, o Lulismo ganha porque foi “homologado” pelo poder: respeito aos contratos das privatizações; pragmáticas coalizões eleitorais; compromissos com o agronegócio e as empreiteiras. Um dos maiores exemplos de homologação do Lulismo ao poder são as nomeações que fez no STF, e isso não porque agora os ministros que lhe devem assento o estão condenando, mas porque o STF foi muito pouco ou quase nada atravessado pelas lutas dos índios, dos pobres, dos sem terra, dos negros, das mulheres e dos familiares de desaparecidos, e tantas outras “minorias” dos muitos. Com efeito, são os critérios das nomeações dos ministros que devem ser democratizados para ficarem mais perto das fontes vivas do direito. Nunca será demais olhar para a política de Direitos Humanos na Argentina dos governos Kirchner e como naquele país foi renovada a Corte Suprema.
Por outro lado, o Lulismo afirma e mantém um grau de autonomia: na reeleição de 2006, na eleição da Dilma e agora do Haddad e de centenas de prefeitos do campo lulista eleitos em cidades do “interior profundo”, onde antes isso era impensável. Nesse sentido, o Lulismo é a figura plebéia do devir-príncipe da multidão dos pobres: o Lulismo conseguiu juntar a força e o dinheiro a serviço das brechas abertas pela e para a democracia dos muitos. A representação também foi atravessada pela expressão. O Lulismo nos mostra que a representação, por limitada que seja, não é sempre igual. Para neutralizar isso foi acionado o espetáculo diário da desqualificação de figuras do lulismo durante o processo eleitoral, o que, em outras centenas de cidades, fez com que o moralismo conservador pequeno-burguês derrotasse candidatos lulistas comprometidos com os pobres e elegesse figuras da mais velha e corrupta política oligárquica.
O Lulismo é atravessado por afetos contraditórios, por potências e ambiguidades. O Lulismo conseguiu atravessar o poder, mas para fazer isso foi atravessado pelo poder. O Lulismo são os pobres que se reconhecem nele e o digerem à sua maneira. Como toda forma de representação , ele enfrenta um sem número de limites. Assim, o aprofundamento democrático nas eleições de São Paulo se acompanha de uma fraquíssima mobilização social de crítica do que está se processando na ação penal 470.
primeiro limite do Lulismo diz respeito à questão da violência do poder: daí as dificuldades em abrir os Arquivos da Ditadura, a omissão diante da matança, dos desaparecimentos e das torturas perpetradas pelas polícias e nas prisões, as práticas do Sistema Penal, sejam elas na segurança pública, política penitenciária ou atuação do Judiciário.
segundo limite é constituído por incapacidade de leitura da nova composição social nessa fase do capitalismo. A ideia de que a transformação social se resumiria na emergência de uma nova classe média de consumidores o torna incapaz de apreender a multiplicidade das novas formas de luta e trabalho. O PT e o governo Dilma parecem tomados por uma cegueira quase total diante das novas dimensões das lutas dos indígenas, dos jovens operários das barragens, dos moradores contra as remoções, dos povos ribeirinhos, dos quilombolas e mais em geral da multidão dos pobres, dos imigrantes bolivianos, haitianos e até espanhóis, dospobres como uma multidão que não quer mais ser homogeneizada, mas luta pelo reconhecimento de suas singularidades e pela remuneração de sua capacidade rica de produzir outros valores, por exemplo transformando o Bolsa Família numa Renda Universal.
terceiro limite foi não ter enfrentado a questão da democratização do setor dascomunicações: seja do ponto de vista da mídia que monopoliza as concessões de rádio e TV, seja do ponto de vista das telecomunicações e da Internet.
O quarto limite foi enfim, a ideia de que os “fins justificam os meios”. Esse limite só interessa desde o ponto de vista das lutas. Paradoxalmente, ele teve resultados particularmente nefastos dentro do próprio PT: burocratizando seu funcionamento em torno dos efeitos de poder econômicos que regem o processo de eleição direta e levando o partido a emular muito da corrupção própria do poder que ele passou a exercer.
Temos dois casos que são emblemáticos desses limites e desse efeito dentro do próprio PT: a sucessão do Ministério da Cultura (MinC), na passagem do governo Lula para o governo Dilma e a política de habitação do PT no âmbito da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Secretaria Municipal de Habitação (SMH) do Rio de Janeiro não apenas participa de um governo conservador pautado pelos interesses da especulação imobiliária, mas executa o trabalho sujo de remover os pobres com “procedimentos democráticos institucionais” quais: pichação das casas condenadas a remoção sem consulta ou informação dos moradores; demolição de apartamentos em casas sobrepostas ou geminadas ainda habitadas; abandono proposital do entulho no meio de ruas e vielas para infernizar a vida dos que resistem; indenizações irrisórias; desrespeito geral à Lei Orgânica Municipal (LOM) com o reassentamento dos moradores em localidades longínquas do lugar de onde saíram. Pior, quando o Defensor Geral, em plena sintonia com essa política, desestruturou o Núcleo de Terras e Habitação (por trabalhar demasiadamente pelos pobres), as instâncias dirigentes do PT carioca, inclusive ignorando apelos de alguns deputados federais e de um vereador do partido, não falaram absolutamente nada. E quando o PT do Rio impõe a substituição do Secretário de Habitação não é para “reformar” essa política, mas para que ela seja mais funcional à reprodução da burocracia burra e suicida.
A sucessão no Ministério da Cultura é do mesmo nível. A nomeação de uma figura inexpressiva para a restauração conservadora do velho conceito elitista de cultura foi o resultado de um duplo mecanismo: por um lado, um setorial petista de cultura produzido pela mediocridade burocrática jogou no lixo oito anos de inovação democrática na gestão Gil. Não apenas romperam a continuidade da gestão, mas não entenderam literalmente nada da inovação radical que aquela experiência representou e continua representando. Pelo outro, a Presidenta se manteve surda às mobilizações da multiplicidade dos movimentos da cultura como ela se mantém surda diante das lutas dos índios e das populações atingidas pelas megabarragens na Amazônia e em geral pelos megaeventos.
Assim, Dilma mostra sua indiferença à necessária abertura da relação entre governo e movimentos, entre constituído e constituinte, e ao fato que hoje a cultura é o terreno da produção de todos os valores. Pior, não vê que a cultura é “o” recurso em disputa para o “desenvolvimento” de um “outro” caminho de desenvolvimento. Não se trata mais da cereja do bolo, mas de seu fermento. Assim, boa parte do PT mostrou funcionar exatamente do mesmo modo que a burocracia dos outros partidos, separando a lógica de reprodução da representação vis-à-vis dos interesses da expressão dos muitos. A Presidenta também parece acreditar que somente existe o valor intrínseco e determinista, isto é totalitário, do crescimento capitalista, ou seja o valor da exploração capitalista dos homens e da natureza.
Desfecho do fim desse final”: o retrocesso que o STF está executando a mando da elite nos mostra que a questão do “Estado” não pode ser deixada – apenas – ao pragmatismo das coalizões e às contradições do Lulismo. Tampouco podemos apostar no moralismo que vem da esquerda udenista. A questão do “Estado” precisa de uma nova geração de lutas e políticas de participação. A mobilização democrática que tinha atravessado o Ministério da Cultura de Gil, Juca e Turino e a militância pró-pobres do Núcleo de Terra e Habitação da Defensoria Pública do Rio são exemplos dos terrenos necessários de mobilização que o Lulismo precisa para ser atravessado pelo amor e pela vida e não reduzido, pela homologação ou pelo golpismo, a mais uma figura da monstruosidade do poder. Somente assim ele poderá continuar a ser uma forma de expressão dos muitos: um instrumento de apoio à incessante produção de subjetividades constituintes, parceiro nas lutas pelos direitos e pela radicalidade democrática, símbolo da expansão da potência dos pobres. E todos aqueles que têm dedicado o melhor de suas vidas a fazer isso contarão sempre com a nossa solidariedade. É nesse estar dentro e contra que poderemos inventar as instituições do comum.
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Este texto expressa um primeiro esforço de construção de uma pauta de debates a serem enfrentados a partir deste momento 2 de dezembro de 2012. Sendo assim, tem um caráter provisório na medida em que está aberto a novas contribuições que poderão surgir a partir destas discussões.
Assinam:
ADRIANA VIDAL – Professora PUC-Rio
ADRIANO PILATTI – Professor PUC-Rio
ALANA MORAES- Antropóloga – UFRJ / feminista
ALEXANDRE DO NASCIMENTO – Professor da FAETEC e do PVNC – Rio de Janeiro
ALEXANDRE FABIANO MENDES – Professor PUC-Rio
BARBARA SZANIECKI – Pesquisadora UERJ
BRUNO CAVA – Blogueiro e Filósofo
BRUNO TARIN – Discente da Pós-Graduação da ECO/UFRJ
CARLOS AUGUSTO PEIXTO JUNIOR – Professor PUC-Rio
CRISTIANO FAGUNDES – Pesquisador – Rio de Janeiro
EDUARDO BAKER – Rio de Janeiro
EMERSON MEHRY – Professor UFRJ
FABIO LEITE – Professor PUC-Rio
FABRICIO TOLEDO – Advogado – Rio de Janeiro
FRANCISCO GUIMARAENS – Professor PUC-Rio
GABRIELA SERFATY – Psiquiatra – Rio de Janeiro
GISELE GUIMARÃES CITTADINO – Professora PUC-RIO
GIUSEPPE COCCO – Professor UFRJ
HENRIQUE ANTOUN – Professor UFRJ
HOMERO SANTIAGO – Professor USP
HUGO ALBUQUERQUE – blogueiro e estudante de direito (SP)
IRINEU COPETTI DALMASO – Professor Santa Maria (RS)
JEAN TIBLE – Professor Fundação Santo André
JÔ GONDAR – Professora UNIRIO
JOÃO RICARDO DORNELES – Professor PUC-Rio
JOSUÉ MEDEIROS – Doutorando em ciência política pelo IESP
JULIA ALEXIM – Professora PUC-Rio
LEONORA CORSINI – Psicóloga e Pesquisadora UFRJ
LEONARDO RETAMOSO PALMA – Agitado e botequeiro (RS)
LETICIA PAES – Professora PUC-Rio
LUCIA COPETTI DALMASO – Advogada – Santa Maria (RS)
MARCIO TASCHETO DA SILVA – Professor Passo Fundo (RS)
MARCIO TENENBAUM – Advogado – Rio de Janeiro
MAURÍCIO ROCHA – Professor PUC-Rio
MARINA BUENO – Assistente Social e Pesquisadora Rio de Janeiro
OTÁVIO VELHO – Antropólogo (UFRJ)
PEDRO BARBOSA MENDES – Pesquisador – UFRJ
RICARDO SAPIA – Pesquisador FAPESP/Unesp
RENATA GOMES – Professora SENAC (São Paulo)
SILVIO MUNARI – Mestrando UFSCar
SIMONE SAMPAIO – Professora UFSC
SINDIA CRISTINA MARTINS DOS SANTOS – jornalista, pesquisadora, Artista-artesã (Rio)
TATIANA ROQUE – Professora UFRJ
TEREZA COPETTI DALMASO – Professora Santa Maria (RS)
THULA PIRES – Professora PUC-Rio
TULIO BATISTA FRANCO – Professor UFF
VICTORIA DE SULOCKI – Advogada e Professora PUC-Rio
VLADIMIR SANTAFÉ – Professor da UNEMAT e cineasta
Ricardo Rodrigues Teixeria – Professor USP
Talita Tibola – Doutoranda – Psicologa e doutoranda UFF

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Há Genocídio da População Negra no Brasil?

Eu afirmaria, antecipando aqui a conclusão, que sim e isso se dá na forma de reação social difusa, desorganizada e velada contra a ascensão dos negros, elemento constituinte da ascensão selvagem da classe sem nome: sim, os negros são um elemento fundamental dos pobres; se nem todo brasileiro pobre é negro, é certo que poucos negros brasileiros não sejam pobres. Se os pobres devêm-excedente no Brasil de hoje, isso significa que os estão englobados nesse processo. 

A dimensão da exploração socioeconômica no Brasil não se resume ao racismo contra os negros, mas tem nele um de seus fatores mais relevantes. Pesquisas recentes apontam que os ganhos dos negros aumentaram em 123% durante o governo Lula, o que resulta em uma marca impressionante de crescimento de mais 15% ao ano. Por outro lado, a taxa de homicídio entre os negros aumentou em 29,8% entre 2002 e 2010, enquanto caiu em 25,5% entre os brancos no mesmo período.   

Em resumo, os negros são, hoje, mais importantes economicamente, ganham espaço na publicidade  e na mídia mas, ao mesmo tempo, são alvos mais acentuados da violência homicida. Esse aparente paradoxo é explicável. Não há política oficial, de Estado ou de grupos não estatais, de eliminação dos negros, e há, a bem da verdade, muito pouco de política marginal de eliminação dos negros. Mas há uma reação social. Não tem o mesmo peso, sobretudo para as polícias, matar um negro e matar um branco, seja na eventual ação homicida ou na constatação da morte.

O fato de ter aumentado o abismo da proporção de negros assassinados frente aos brancos que tiveram o mesmo fim, aliás, aponta que um fenômeno perturbador está em jogo. Sobretudo porque o sentimento geral é de que não estamos diante de nada incomum, ou pelo menos nada incomum em relação situação histórica de violência contra os negros, mas estamos porque agora mesmo os negros são mais matáveis do que já eram em relação aos brancos.

É também prova de que qualquer economicismo no trato da questão do racismo, inclusive aquele que fundamenta a defesa das cotas "sociais" em detrimento de cotas "raciais", é falso. Existe sim uma autonomia entre o racismo e as condições financeiras da população negra e, é claro, não serão medidas que garantam o incremento de renda dos negros que, apenas por elas, diminuirão a situação como o negro é percebido socialmente.

A situação que já era grave em 2002, quando havia 1,64 negro assassinado para cada branco em 2002, tornou-se agora gravíssima com a cifra passando para 2,32 negros mortos para cada branco morto em 2010. Como Foucault dizia, o racismo importa num dispositivo fortíssimo que em último caso diz respeito à decisão sobre quem vive e quem morre -- numa sociedade pós-fordista e pós-pós, um fenômeno social difuso, não raro, importa mais do que uma política deliberada de Estado em uma direção genocida.

É verdade que não há como pensar na questão do negro deslocada da sua posição no sistema de produção, mas é preciso considerar que "produção" implica em muito mais do que produção de bens e serviços, mas também de subjetividades: o racismo, portanto, entra nessa história de forma autônoma à ascensão financeira do negro, embora se relacionem em algum grau. 

O acirramento do terror de uma maneira velada, indolor e silenciosa em relação à condição da negritude é uma interdição horrível que se abate sobre o inconsciente comum; seus efeitos nefastos servem para a não resolução da nossa relação mal resolvida, para dizer o mínimo, com nossa africanidade constitutiva. Mais do que nunca é preciso organização e mobilização para vencer esse genocídio branco.




terça-feira, 27 de novembro de 2012

Filhotes da Ditadura: A Seleção, Marin e a morte de Herzog

Vladmir Herzog
Muito se fala e muito se diz sobre a queda do treinador da Seleção, sobre quem o sucederá e sobre a crise no nosso futebol às vésperas da Copa que sediaremos. Pouco se escuta, mesmo que seja de ouvir dizer, qualquer coisa sobre causas de tanta degradação que, certamente, superam o óbvio da mercantilização do futebol e, sobretudo, da Seleção Brasileira, rifada entre interesses comerciais e políticos da própria CBF, da TV Globo e dos empresários dos jogadores e do próprio treinador da Seleção: existe algo de político, um fator importantíssimo que remete ao fato de como a política nacional penetra o futebol e vice-versa.

Vamos lá. Hoje, diante da prisão do vice-presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, o jornalista Juca Kfouri lembrou do passado obscuro do dirigente e suas ligações íntimas com a Ditadura Militar. Há coisas piores: o atual presidente da CBF, José Maria Marin, nos seus tempos de parlamentar apoiador da Ditadura Militar, foi um dos responsáveis por denunciar o departamento de jornalismo da TV Cultura por promover a "presença comunizante no vídeo" (no dizer de seu correligionário, Wadih Helu) -- dessa denúncia resultou um processo de investigação pela polícia do regime que terminou com a morte de ninguém mais, ninguém menos do que o jornalista Vladmir Herzog.

Em outras palavras, o nosso futebol está nas mãos de uma rede de televisão que sustentou a Ditadura, e de dirigentes que foram burocratas da Ditadura. A erosão do nosso futebol, via capitalismo 2.0 e redução do nobre esporte bretão à lama dos holofotes e do marketing é apenas parte de um processo que não começou agora. Os mesmos dirigentes que enquadraram o futebol ao esquema do capitalismo estatalista comandado por militares são aqueles que o colocaram na rota da mercantilização, do craque for export e para o inferno goebbeliano da máquina de publicidade do capital. 

É um processo que se interpenetra ao Estado, o projeto silencioso do chamado "entulho autoritário" que os democratas, meio positivistões, achavam que ia ser "superado" com o andamento de eleições e debates livres. Em outras palavras, precisamente no momento. Nada de novo sob o Sol. Pouco importa a Arena histórica, que está em vias de ser refundada, mas o arenismo que subsistiu em caráter viral pelas instâncias variadas do Estado e de seus tentáculos. A recaptura do futebol, um esporte de elite devorado pelo povão, mas agora ameaçado pelo grande capital é parte disso. 

O momento, portanto, é paradoxal: se nunca antes estivemos tão bem, nunca antes o poder esteve por aí tão forte a nos espreitar. Os megaeventos poderiam ser uma oportunidade única esportiva e urbanística para o país, mas podem ser, perfeitamente, um desastre -- como tendem a ser --, sobretudo se a gestão burocrática do esporte perder mais oportunidades ainda de inverter a hierarquia do "esporte de ponta" em relação ao "esporte de base" -- como o PT conseguiu fazer em várias outras áreas.  Nada leva a crer que venceremos a Copa de 2014, mas a verdadeira derrota é o atoleiro do que fica, tanto no sentido institucional quanto pela completa erosão do comum futebolístico. O adversário não é Marin, como não era Ricardo Teixeira, mas o processo que os colocou e os sustenta no poder.




terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Inconsciente Negro e as Minorias

O Brasil é um país cuja cultura é em grande parte negra, mas ele lida mal com isso. Assim como em boa parte das coletividades humanas nascidas da expansão do homem europeu pelo mundo, já sob o paradigma da "civilização", aqui também existe uma herança nativa, ou escrava, pré-civilizacional, que se mantém viva e oculta em pleno atrito mudo com a "normalidade do modelo": não é diferente nos países hispânicos e nos Estados Unidos também em relação aos seus índios e negros, na Rússia em relação aos povos orientais, na China em relação aos povos mongólicos.

O negro, vejam só, é ontologicamente minoria, pois ele só o é devido ao mau encontro com o colonizador europeu em África: negro é negro em comparação a um padrão de maioria chamado "branco". Em África, antes do imperialismo, os negros simplesmente eram a multiplicidade de etnias na qual se constituíam, a despeito de qualquer binarismo branco-negro. Há dois pontos aí: antes do homem europeu, os negros não eram negros (e nem precisavam ser); quem precisa que eles sejam negros eram os europeus (com o intuito de se afirmarem brancos) e, ao mesmo tempo, sob o rótulo de negro existe uma multiplicidade de etnias e culturas diferentes -- ninguém pergunta a um brasileiro branco se ele é descendente de brancos, mas sim se ele é descendente de portugueses, italianos, alemães, árabes, espanhóis, holandeses, poloneses etc; com o negro não: ele é descendente de escravos, de um negro, pouco importa de qual e de onde em África.   

O mesmo ocorre com os loucos: só há louco pela razão de que há alguém que afirma publicamente seu modo de demência -- em busca de autorização --, se dizendo "normal" e afirmando que todas as outras demências são loucura -- o louco é alguém que ousa se comportar de forma diferente. Só há um pobre porque existe um "rico" a lhe oprimir: ser pobre é estar, necessariamente, oprimido de um modo que sua própria vida é roubada cotidianamente, mas ainda assim, se resiste -- o pobre é um resistente por natureza. Só há índio porque houve um colonizador a vir até aqui, reduzir uma miríade de etnias a "índio" (= homem colonizável), devir-índio é encontrar-se resistente a um processo de colonização (a começar pelo próprio corpo). Nem o negro precisa do branco, nem o louco do normal, tampouco o pobre carece do rico ou o índio faz questão do cara-pálida para Ser. Mas a recíproca não é verdadeira, justamente por isso as minorias são parasitadas pelas maiorias.

A luta não se constitui por essas identidades, mas a partir da potência que essas subjetividades, forjadas na resistência possuem. Daí, se depreende que há uma miríade de áfricas no negro, uma miríade de jeitos no louco, uma miríade de gentes comuns viventes no pobre, uma miríade de brasis (ou até mesmo uma multiplicidade que há antes e a despeito do Brasil) no índio. Assume-se o binarismo, a máscara discriminada, e de sua potência causa-se uma explosão: não é que falemos em potência do desejo, mas que o desejo é potência, é energia e ele mesmo é o único modo de mudar o que quer que seja. 

O racismo, por sua vez, não é real, pois não existe realmente raça entre os humanos, mas isso não impede que como ficção (em tom de farsa) ele produza o real da opressão e, por isso, não se possa utilizar medidas legais (igualmente ficcionais) para combater a discriminação racial. Também pouco importa mais e mais informações da Genética ou da História sobre a insanidade da discriminação, ninguém é racista por falta de informação, muito pelo contrário, mas por gozo perverso: mais do que informação, precisamos de comunicação, e a comunicação  está para além da própria Linguagem, habitando na relação afetiva e na potência de afetar; é preciso afetar, de qualquer modo, interferindo no desejo do racista.

O problema também não mora em ver Joaquim Barbosa como negro, ou Dilma como mulher, mas em não ver Gilmar Mendes como branco, uma vez ocupe a Presidência do STF, ou FHC como homem, uma vez Presidente da República. No entanto, tanto o presidente do Supremo quanto o da República foram, ambos, forjados e sustentados no imaginário sob o paradigma branco, normal, rico e quatrocentão (ou imigrante bem-sucedido): não é a ascensão das minorias ao cargo, por si só, que muda algo, mas a chegada da minoria enquanto minoria. A sociedade não mudará se for permitido aos negros enriquecerem ou ascenderem à chefia do Estado, mas se eles chegarem lá enquanto negros e subverterem a ordem -- hierárquica, opressora, mutuamente escravizante.   

Não somos todos negros, mas podemos devir negros. É, no entanto, o devir-negro do negro que pode fazer a diferença diante do incomum do racismo: não existem, realmente, negros e brancos, há, na verdade, brancos sobre negros; é preciso devir-negro para além da própria negritude, mas a partir dela.   




domingo, 18 de novembro de 2012

Pela Palestina

"Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte. No conflito Israel-Palestina, as ações dos israelenses são consideradas retaliação legítima (mesmo que seus ataques sejam desproporcionais); e as ações dos palestinos são, sem exceção, tratadas como crimes terroristas. Um palestino morto jamais interessa tanto, nem tem o mesmo impacto, que um israelense morto (...) O conflito Israel-Palestina é um modelo que determinará como o ocidente enfrentará, doravante, os problemas do terrorismo, também na Europa (...) Esse conflito é uma estranha espécie de chantagem, da qual o mundo jamais escapará, a menos que todos lutemos para que os palestinos sejam reconhecidos pelo que são: “parceiros genuínos” para conversações de paz. De fato, estão em guerra. Numa guerra que não escolheram".
(Gilles Deleuze, artigo publicado no Le Monde de 7 de Abril de 1978, tradução do inglês de Caia Fittipaldi -- retirado daqui)



O artigo em questão tem mais de 34 anos, no entanto, ele se mantém incrivelmente atual, o que afirma seu tom profético: e a profecia, em verdade, nada tem a ver com a transcendência, mas com a capacidade de descrever os movimentos reais e, portanto, suas tendências. Pouco mudou naquela região: aquele estágio do massacre sofrido pelos palestinos determinou, de fato, o modo que o Ocidente enfrenta o "terrorismo". Nestes momentos de crise, nos quais a problemática contínua da questão Israel-Palestina vem à tona, é natural que os trechos deste artigo rodem a rede, o que deixa tudo claro: não, nunca foi um conflito, sempre foi Israel sobre e contra a Palestina.

A forma como se estrutura a atual contenda entre israelenses e palestinos não é mesmo conflitual: agora, a exemplo da violência de três anos atrás, trata-se de um massacre. A Palestina não detém força aérea, marinha de guerra ou tropas regulares. Gaza é praticamente um gueto. Israel tem o que de mais moderno existe no mundo em termos bélicos. A proeminência do complexo bélico-industrial israelense é tamanha que consome os recursos do próprio país. O saldo de mortos palestinos é uma evidência clara: o bebê de onze meses morto recentemente em um ataque da força aérea de Israel a Gaza é prova cabal. 

Desta vez, outro item também não é diferente: a indiferença da cobertura midiática ocidental é proporcional a indiferença israelense pela vida dos palestinos. Mas a Palestina é resistência. Para além da catástrofe e do romantismo: se o "índio" era, para muito além da Índia real, a definição genérica para "homem colonizável" dos europeus, "palestino" é muito mais do que uma nacionalidade ou uma etnia, mas uma subjetividade decorrente da resistência à colonização incessante da máquina ocidental -- e sua fantástica desconsideração em relação ao outro. Não é que somos todos palestinos, mas devimos palestinos quando resistimos a esse processo de avanço incivilizado da civilização.

Sem dúvida, este é o paradoxo israelense: Israel é o avanço e o auge da civilização no Oriente Médio e, portanto, é seu antagonista, pois eleva as contradições daquela noção romana -- que mais tarde engrossou o caldo do que seria a cultura ocidental e, em último caso, a cultura global -- ao extremo. Ser civilizado é ser oposto a selvagem, é estar para lá do acaso da vida natural, ou em ligação com a natureza, para habitar tecnologicamente e, portanto, estar sujeito a uma Lei.

Israel é o auge da tecnologia porque, dentre outras coisas, se estrutura em torno de uma língua morta recriada tecnologicamente, por ambientes tecnologicamente viabilizados pelo melhor que a tecnologicamente pode oferecer e, também, por tudo o que há de mais moderno em tecnologias sociais, políticas e informacionais -- mas o corte principal está entre o eu e o outro, a maneira como a tecnologia aparta por ser incapaz de criar critérios para distinguir o molar do molecular (como diria o próprio Deleuze), o que pertence ao mundo dos grandes números, das multidões reduzidas a estatísticas, ao mundo das singularidades, de nós mesmos enquanto humanos.

O rompimento pretenso que a civilização sempre promoveu do homem em relação à natureza -- que jamais resta superada mas estará sempre bem ali, atualíssima -- é inviável, seja das relações do homem com o homem ou dele próprio com o ecossistema (o que se tornou tragicamente claro nos últimos anos). A civilização, como os próprios Estados nação que ela forjou, é inimiga de si própria por não reconhecer a alteridade: é sempre nós (civilizados) e os outros (selvagens), mas enquanto os últimos se bastam a si próprios, os civilizados vivem às custas deles. O selvagem simplesmente é, livre e sem rótulos, ele só passa a ser selvagem por obra e graça da civilização.


Justamente por ser tão civilizado é que Israel é ele mesmo inimigo da civilização, uma vez que sua estratégia sempre girou em torno da destruição das instituições alheias, financiamento de grupos religiosos para minar grupos árabes laicos (como no caso do Hamas, financiado para enfraquecer a laica Fatah) e pela destruição física da civilização ou bolsões civilizacionais dos seus adversários (como o caso do Líbano). 

O paradoxo de Israel é o paradoxo da civilização ele mesmo, de sua insustentável leveza que o faz tender contra si mesmo a se devorar. Israel engendra seus inimigos, não é que ele crie inimigos selvagens, mas que ele traz um paradigma civilizatório -- copiável até como forma de resistência a ele mesmo -- que ele devora e não aceita -- nem pode aceitar -- sua universalização pelos outros: ele engendra, assim, inimigos irracionais que servem ao seu discurso, mas que podem liquida-lo tal como fizeram os romanos com os "bárbaros".

Há quem diga que os palestinos não existiam antes de Israel. Fale que eles não passavam de gentes dispersas, de forma selvagem, por aquelas terras. Há quem veja algo de mal nisso, afirmando ou rebatendo tal afirmação, mas o fato é que essa afirmação é verdadeira: os palestinos simplesmente viviam ali e pouco importava qualquer palestinidade. Sua existência é fruto da resistência ao poder, ao déspota que veio de longe, e engendrou pela negação da vida vivida naquelas terras uma subjetividade: eis aí que emerge o palestino, do mau encontro com a colonização no seu auge tecnológico, trazida de maneira tão irônica quanto cruel justamente pelo povo que foi a maior vítima dela, cuja chegada negou-lhes a vida.

Do mesmo modo que o índio não era índio antes do mau encontro com os europeus -- portanto, os índios sempre foram minoria e, por isso, índio é ontologicamente minoritário -- o palestino só é palestino depois do mau encontro com Israel, isto é, só aí que a territorialidade da Palestina é fixada, não antes. A Palestina não desaparece, apesar de todos os poderosos esforços para tanto, pois ela, ironicamente, nasceu de uma invasão. E os judeus, trazidos pelas mãos do sionismo em fuga, encontram-se diante de uma outra encruzilhada: a saída sempre esteve em reconhecerem a sua própria orientalidade no processo de retorno -- como diria Uri Avnery -- não em reafirmarem a identidade com o fenômeno que os vitimou, qual seja, o ocidentalismo; enquanto o fizerem, serão os romanos ou gregos voltando, mas jamais os judeus.